Fotografia da realidade e responsabilidade

Olá people!

Não vou nem comentar como estou sumida... deixemos quieto, ok? Resolvi que já era hora de tornar esse blog o que ele deve ser: um pedaço de mim, com coisas que gosto, leio, vejo, penso, acredito. Hoje vim questionar.

Então, li um artigo (vou colocar o link abaixo para vocês darem uma olhada) sobre uma foto fantástica de uma fotógrafa americana que faleceu mês passado, a Mary Ellen Mark. Ela tinha uma pegada de fotojornalismo humanista, clicava crianças sem teto, prostitutas, pessoas em situações de abandono social. Um de seus cliques mais famoso é esse aqui:

Pic Mary Ellen Mark

Pic Mary Ellen Mark

Fazendo um breve resumo da reportagem que li (veja a íntegra aqui) ela tirou essa foto no início da década de 90, quando foi designada pela revista Life para cobrir uma reportagem sobre uma escola com "crianças problemáticas". A guriazinha à direita, com cigarro, make e unhas fake tinha 9 anos à época. Após a morte da fotógrafa em maio de 2015, Amanda (é o nome da menina), teve acesso à foto através do facebook. Aparentemente a vida dela continua difícil, ela já esteve presa e diz estar cercada de  "pessoas loucas e drogas". 

Mas o que mais me chamou a atenção no texto foi o que Amanda disse acerca daquela fotógrafa e da ocasião das fotos. Vou copiar e fazer uma tradução livre:

"When she came along and took those photos, I thought, 'Well, hey, people will see me and this may get me the attention that I want; it may change things for me,' " Ellison says. She thought someone would see the images and come rescue her. "I had thought that that might have been the way out. But it wasn't."

("Quando ela chegou e tirou aquelas fotos, eu pensei 'bom, as pessoas irão me ver e talvez me deem a atenção que eu quero, isso pode mudar as coisas para mim,' disse Amanda. Ela pensou que alguém poderia ver as imagens e vir resgatá-la. "Eu pensei que talvez aquilo pudesse ser uma maneira de cair fora. Mas não foi")

Fiquei pensando na responsabilidade que nós fotógrafos temos ao tirar uma foto. Não tanto a fotografia comercial (aquele que somos pagos para fazer) mas também nela (assunto para outro texto), mas a fotografia autoral, documental, fotojornalística ... não interessa o nome que possamos dar. A fotografia da realidade. 

As fotos da menina rebelde geraram muito mais do que imagens impactantes... geraram esperança. Por mais linha dura que ela pudesse ser, no auge dos seus tumultuados 9 anos, seu coração viu naquelas fotos, naquela fotógrafa, uma tábua de salvação. Que não veio.

A razão pela qual a fotografia não mudou a vida dela naquele momento é impossível de imaginar. Aliás, seria romântico crer no contrário, até meio Pollyana eu diria (e olha, tem muita gente que me fala que eu sou expert no jogo do contente). Mas a esperança que tomou o ser da pequena, essa sim, eu consigo imaginar, diria ser tangível a ponto de ser possível fotografá-la.

Jacobson, fotógrafo do New York, que era amigo da fotógrafa falecida comenta que ela não era do tipo de trazer falsas impressões aos seus modelos. E finaliza com a frase matadora que ficou na minha cabeça: 

 "In any photographic encounter, the one person that always benefits and always is in a more powerful position and always knows more is the photographer."

(Em qualquer encontro fotográfico, a única pessoa que sempre tem benefícios e sempre está em uma posição mais poderosa e sempre sabe mais é o fotógrafo)

Ei colega, me diga você, o que está fazendo com todo o seu poder? Está sendo no mínimo responsável com seu clique? Com sua fotografia? E, principalmente, está sendo responsável e respeitoso com aquele que te dá um pouco de sua própria alma lhe cedendo um clique?

Não soube responder às minhas próprias perguntas... preciso refletir. Quem sabe na próxima?

Bjo

Dani